José surfando por São Paulo

Quando pequeno, José Raucci tinha asma. Para melhorar suas defesas e desenvolver a capacidade respiratória, começou a praticar natação. Dedicou-se ao nado por muitos anos e, depois, quando moço, começou a surfar. Adora mar, rio, piscina – é só ver água que começa a nadar. Na cidade de Santos, à beira-mar, formou-se psicólogo. Depois, já formado e com cursos de psicofarmacologia e psicologia jurídica, foi viver em Florianópolis. Lá, voltou a surfar e a conviver com jovens – conviver com eles sempre me deu prazer e juventude, disse. Com uma prancha grande, ele era o avô do surf. Mas, mesmo assim, começou a sentir falta de movimento e de mais trabalho. O primeiro casamento terminou, ele engordou e ficou deprimido. Os amigos o chamaram de volta para São Paulo. José voltou. Conheceu Paula, a paulistana com quem se casou e que o fez mudar-se definitivamente para a metrópole. Aqui, trabalhou em sua clínica atendendo gente de todas as idades. 

Um dia, um paciente acidentou-se e ficou hospitalizado. José foi atende-lo na UTI. Ao acabar o atendimento, o parente de outro paciente perguntou-lhe se ele era psicólogo. Disse que sim e aceitou atender mais esse doente. Desse acontecimento surgiu a ideia de que muitas pessoas poderiam preferir psicoterapia a domicílio – pela dificuldade de locomoção, pelas distâncias da cidade ou pelas próprias dificuldades dos problemas que enfrentam. Tornou-se, então, após décadas de prática terapêutica, o que ele chama de psicólogo home care. Deixei o carro, ando de metrô, ônibus, trem e a pé. Se necessário, pego um uber, contou. Fechou o consultório e vara a cidade atendendo pacientes que morem num mesmo bairro. Percorre um bairro por dia. Emagreceu 16 quilos com as andanças.

Nossa entrevista foi na Livraria Cultura, do Shopping Iguatemi, onde também recebe pacientes. Tem gente que quer ir a uma praça, a uma lanchonete, a um shopping. Por que não? Pergunta. Ele é um homem que fala bastante, calmamente, claramente. Tem 74 anos e pacientes em idade entre 4 e 72 anos, com os quais desenvolve o que chama de terapia breve, isto é, pontual, focando um problema. Quando ele se resolve, dispensa os atendimentos. Se ele (o paciente) precisar, lá para a frente, me chama de volta. Não tenho nada contra o divã, mas cada um deve atender como se sente melhor. Eu gosto de fazer assim.

É um grande conversador e contador de histórias. Quando lhe perguntei o que se deve fazer para ter uma envelhescência cheia de futuro, ele disse – sair de casa, encontrar pessoas, sair de dentro de si, soltar-se, ser maleável – como diz o ditado, o coqueiro verga, o carvalho quebra.

Assim, José atende seus pacientes, movimenta-se e resolve os problemas dos outros e os seus também. E, numa cidade que não tem mar, nem rios nadáveis, ele consegue surfar pela cidade convivendo com pessoas e se renovando. Foi ele o primeiro entrevistado que entrou em contato através do site do Projeto Envelhescência. As fotos dele fui eu que tirei com meu celular. Gostei! 




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