Rian, a cronista da sala escura

Ela nos recebeu em sua casa – um sobrado geminado na zona sul de São Paulo. No hall de entrada, uma cômoda antiga nos deu as boas vindas ao lado do retrato de sua mãe, que nos olhava de uma moldura oval – uma moça bonita com um pega-rapaz na testa e olhos claros – a família de minha mãe, de Alagoas, tem olhos claros. Não sei porque, disse. Eram latifundiários... Rian é uma forasteira. Nasceu em Maceió, mudou-se com os pais para Recife, casou-se e, com o marido, dois filhos e uma mucama herdada da mãe, a Iracema, ou Cema, como a chamava, veio para São Paulo. Mudaram de casa diversas vezes, passou tempos no Rio de Janeiro e, agora, depois de décadas morando no sobrado, vai mudar-se novamente, pois um prédio será construído no terreno. Não consegui resistir como a personagem do filme Aquarius, disse, numa referência a Clara, a personagem vivida por Sonia Braga no filme de Kleber Mendonça Filho, no qual luta contra uma construtora que quer demolir o condomínio onde mora.

Essa nordestina pequenina e delicada tem sangue forte – nasceu de uma família presbiteriana mas, aos poucos, entrando em contato com a ciência e a filosofia, área na qual se formou, começou a questionar os dogmas e, por influência do marido, José Leão, jornalista, publicitário e militante da causa operária, acabou se tornando uma mulher de esquerda. Eu queria a justiça social... Em São Paulo, o marido integrou organizações revolucionárias e acabou sendo um perseguido pela Ditadura Militar. Eu não militava propriamente, diz Rian, porque já tinha quatro filhos, dois nascidos em São Paulo, e temia ser presa. Mas, como se perseguia não só subversivos, mas também suas família, Rian foi detida por três vezes. Para sobreviver a isso, ela contou com a solidariedade de colegas, amigos e da incansável Cema.

Rian tornou-se psicanalista e, passou a clinicar nos intervalos de seu emprego como funcionária pública e da sua agitada vida familiar. Agitado foi também seu casamento com Leão, um homem inteligente, revolucionário mas, machista, possessivo e ciumento, de quem Rian se separou afinal. Depois disso, conheceu a liberdade e a possibilidade de viver intensamente coisas que amava, como o carnaval e os encontros com amigos. Teve outros relacionamentos afetivos mais curtos e mais longos que também terminaram, como ela conta, encerrando a frase com um gesto de mão que parece um adeusinho. 

Como Rian resolveu escrever? Sempre gostei de escrever. Uma professora de literatura da escola leu uma redação em sala de aula e fiquei feliz quando descobri que era a minha. Ela dizia que eu devia escrever. Quis escrever romances, mas não fiquei contente com o resultado. Como psicanalista e como funcionárias escrevi muitos relatórios, conta. Mas foi o cinema que conseguiu trazer à luz sua verve de escritora. Ela passou a fazer parte de um grupo de cinema – o Grupo de Cinema Paradiso – uma reunião de aficionados que se encontra para debater um filme que tenham escolhido ver. Os companheiros dessa iniciativa a estimularam a escrever crônicas e depois, passados os anos e reunidos os artigos, foi lançado um livro Crônicas da Sala Escura, em que Rianete Lopes Botelho (esse é seu nome completo com o qual assina o livro), aos 84 anos, estreia como escritora.

Folheando esse livro que traz 44 capítulos inspiradores como E se fosse eu?, é fácil perceber que o cinema teria tudo para fazer desabrochar, finalmente, a escritora. Nessa crônica em que analisa O Leitor, dirigido por Stephen Daldrey, em 2008, Rian analisa a situação da personagem Hanna que acabou colaborando, na Alemanha, com o regime nazista. Hanna pergunta a quem a questiona: o que faria no meu lugar? Rian responde: ... para quem está no olho do furacão, fica difícil lutar contra ele, pois envolve a própria sobrevivência, que muitas vezes fala mais alto

E se fosse você? O que à sua volta e naquilo que viveu o inspira a, finalmente, olhar para sua vida e perceber o que a faz e fez ser a sua?





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