Teresa finalmente inaugura a Luar Chic

A vida é um brechó

Teresa nos recebeu em sua casa. Entramos pela porta da cozinha, um espaço acolhedor e claro onde se via uma mesa e um aparador com toalhinhas de mesmo desenho. Em cima delas, uma garrafa térmica amarela com café que ela nos ofereceu em pequenas xícaras de porcelana com paisagens azuis campestres. Passamos à sala com dois sofás – ela se sentou em um e eu no outro. Havia um armário de onde nos olhavam familiares desde porta-retratos de tamanhos diversos.

Teresa estava tímida: ”Não sei falar bem. Não estudei.”, disse esfregando as mãos calejadas e nos olhando com olhos meigos e simpáticos. Disse-lhe que queria apenas a sua história e não uma fala sem erros. Ela começou então a contar que nascera de uma família numerosa que vivia no campo. “Fui a terceira de catorze irmãos. Tivemos muitas dificuldade. Não pude estudar.” Repetiu. “Tinha que ajudar a mãe em casa e a escola era longe”.

Com 11 anos, empregou-se como babá e como empregada doméstica trabalhou uma dezena de anos. “Com as patroas aprendi a cozinhar e arrumar uma casa. Foi minha patroa que me ensinou a escrever. Com meus irmãos eu tinha aprendido a ler, mas não assinava meu nome”. Depois, foi estudar no Mobral, à noite, completando a 4a série. Conheceu o marido. Casou-se. Teve um filho e tornou-se operária, trabalhando em fábricas por 32 anos. Nesse tempo voltou a estudar e chegou à 8a série. “Eu adorava trabalhar, das 12 às 22 horas. Só me aposentei porque meu ombro não aguentou mais.”

Enfim, Teresa pôde realizar um sonho que acalentou por longos anos: na parte de baixo da casa onde mora, abriu um brechó, o Luar Chic. Agora, aos 71 anos, das 10 às 18 horas, ela atende pessoas que entram na pequena loja com o sonho de vestir uma roupa que enfim se torna acessível, uma roupa que traz as formas de outros corpos e as marcas de outras vivências. Enquanto isso, Teresa materializa mais uma vez aquilo que sempre fez na vida: trocar, costurar, lavar, passar, desmanchar, medir, arrumar o que é dos outros. Assim ela ressignifica aqueles objetos e roupas que terão uma nova vida, um novo rumo, um novo dia, um novo dono. Assim aconteceu com ela: quando menina, tornou-se “mãe” de seus irmãos, quando babá, se fez operária, e depois, empreendedora. Na verdade, para Teresa, a vida sempre foi um brechó.

Enquanto falávamos, Marcio Salles, o fotógrafo, registrou feições e gestos de Teresa. Olhe para eles.




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