A mais recente turnê de Sara

Ela nasceu na Holanda durante a Segunda Guerra Mundial. Sua infância foi difícil, passou inúmeras dificuldades e aprendeu o que é a fome. Seu pai, filiado ao Partido Comunista, foi para um Campo de Concentração nazista e sua mãe, de ascendência judia, embora poupada por ter se casado com um goi (católico), teve dificuldades de cuidar dos dois filhos: Sara e seu irmão mais velho. 

A família era grande – 13 tios, irmãos de sua mãe Sara e filhos da avó, também Sara, nome que atravessou gerações. Todos se dedicavam à música. Eram pobres, mas tinham um piano velho e faziam instrumentos com caixotes reformados. Desde pequena, Sara gostava de cantar e dançar. Eu era boa nisso, confessa.

Depois, a Guerra acabou: Eu me lembro dos caminhões de soldados americanos nas ruas da cidade (Rotterdam) distribuindo bolachas para as crianças. Nessa época, o irmão de Sara havia ido para o interior do país trabalhar em troca de comida. O pai voltou para casa, mas Sara mal o reconheceu. O casal separou-se e a mãe se tornou tudo na vida da menina. Nessa época, ela começou a estudar.

Sara começou a cantar em bares quando jovem e assim conseguiu ganhar um dinheirinho para ajudar em casa. Conheceu seu marido – um baterista brasileiro que passou dez anos viajando pela Europa. Tiveram o primeiro filho e mãe e criança acompanhavam a turnê do pai pelos países europeus até que, um dia, faltando uma cantora no grupo de músicos, Sara tornou-se cantora profissional e, desde então, não parou mais de cantar.

Anos depois, o casal com o filho mudou para o Brasil e, aqui, nos anos 1960, formaram o Modern Tropical Quintet que embalou inúmeras festas de formatura e bailes de debutantes. Viajaram muito. Tiveram mais um filho que hoje é baterista como o pai.

O marido de Sara morreu em 2008. Nós íamos fazer 50 anos de casados, contou. Nunca nos largamos. Pensei que tinha tudo terminado, mas pouco a pouco reagi. Comecei a procurar barzinhos onde me dessem uma chance para cantar e foram surgindo, aqui e ali, oportunidades. 

Sara, aos 79 anos, continua cantando, acompanhada pelo filho mais moço com quem vive. O mais velho mora na Holanda. Ela tem outra paixão – cozinhar. No dia em que nos recebeu em sua casa toda branca, ela preparava um peixe no forno que ia cobrir com pimentões e cebolas. E assim, cantando e cozinhando, ela vai fazendo da vida uma incessante turnê que enfrenta dificuldades, guerras, mudanças e lutos, mas mantém no corpo e no espírito o registro e a memória de suas paixões – a música, a dança, a cozinha, o marido e a família. No seu rosto se percebe o olhar de moça revigorado pela lembrança constante de seus dons e paixões. O fotografo Marcio Salles registrou tudo.





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