A Velha Dama Indigna

Sejamos todos

Creio que o Projeto Envelhescência nasceu em 1965, quando estreou no Brasil um filme importante – uma adaptação de peça de Bertold Brecht, em 1939, dirigida por René Allio – A velha dama indigna. A protagonista, Berthe, aos 70 anos, fica viúva. Os filhos se prontificam a cuidar dela e de sua vida, mas a mãe se rebela. Sem as obrigações do casamento e da educação dos filhos que já são adultos, ela se dispõe a conhecer um mundo até então desconhecido – passeia pela cidade, entra em lojas, toma sorvetes apetitosos, conversa com desconhecidos, sai à noite. Para indignação dos filhos, torna-se amiga de uma garçonete que também é prostituta e de um sapateiro de cabeça aberta. Ao público, a simpática curiosidade de Berthe pela vida pelo inusitado, por tomar conta de si de forma independente e autônoma, surpreende e enche de alegria e esperança. Nada de ressentimento ou culpa, de amargura ou frustração, a “velha dama indigna” está  viva e pretende se desvencilhar dos limites que a família e o meio querem lhe impor. Mesmo com essa disposição contrastando com uma figura bastante singela e comportada – vestida sempre com roupa escura, chapéu e cabelos presos – Berthe transmite alegria e entusiasmo por descobrir a vida.

Se a personagem dessa viúva, em 1939, na peça, e 1965, no filme, propunha uma nova visão do longevo, que diremos hoje, quando vivemos mais e com melhores condições de saúde  e resistência do que há décadas atrás? Como Berthe, precisamos olhar as gavetas em busca dos sonhos que lá esquecemos em meio a papéis dobrados e amarelados. Precisamos reler nossas anotações, reviver antigas emoções e colocar o pé na estrada procurando renovar nossa alegria de viver e preparando-nos para ter um futuro. 

Temos diversas fases na vida em que a morte se torna próxima e presente, abalando a falsa crença em nossa imortalidade – quando perdemos alguém, quando finalizamos um ciclo de atividades, quando transformações radicais nos tiram do lugar-comum. Ante essas mudanças repentinas da vida, nossa energia vital se mobiliza e se encaminha para o futuro sob a forma de planos, esperanças e reinserções na vida. O envelhecimento traz esse desafio de despertar nossos desejos. Essa é a poesia que existe em Berthe – descobrir-se desejante. Desejante de amigos, de novidades, de conhecimento, de ver vitrines, de perambular pela cidade, de tomar sorvete, enfim, de dispor de si mesma.





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